sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Os Melhores Discos de 2009 - Público

Por João Bonifácio, Luís Maio, Mário Lopes, Pedro Rios e Vítor Belanciano

1. Animal Collective
Merriweather Post Pavillion
Domino, distri. Edel

Assemelham-se cada vez mais a uma experiência sensorial, onde nada repousa sobre um plano fixo. Este álbum é a imagem dessa projecção estereoscópica: uma folia psicadélica que desmascara cores atrás de cores, num efeito de encanto multidimensional. É uma obra onde três indivíduos - Noah Lennox (Panda Bear), David Portner (Avey Rare) e Brian Weitz (Geologist) - transformam o caos num local transparente, impondo uma organização libertária e uma energia adolescente. É também um disco onde voltam a transformar-se, procurando novos territórios, não prescindindo da experimentação - mas realizada de forma mais inteligível. É, em parte, a conclusão de "Strawberry Jam" e do álbum a solo de Panda Bear, "Person Pitch", ambos de 2007. Totalmente desmaterializado, mas de extraordinária coerência harmónica, é feito de cascatas de "samples", nacos sintéticos, vocalizações celestes, composições à flor da pele e melodias radiosas. Em nenhuma outra obra do grupo é tão evidente a ideia de organização libertária, gente que se junta e pega nos materiais à disposição para fazer alguma da música mais admirável dos nossos dias. Uma força admirável porque desde que o grupo se formou, em 2000, já lançou oito álbuns e não pára de surpreender. O ano começou com eles, com este registo. E termina com eles, com "Fall Be King", EP com cinco admiráveis canções. V.B.

2. Grizzly Bear
Veckatimest
Warp, distri.Symbiose

É notável a ambição dos Grizzly Bear. Porque sonhou alto numa altura em que a obsessão do "shuffle" mata a fruição de um álbum como corpo uno. A banda de Nova Iorque apontou ao céu com arranjos celestiais, uniu as vozes como instrumento de transcendência ancestral e coseu tudo, génios do passado e ideia de presente, nos padrões intrincados que originaram "Veckatimest": tocante ode à pop como possibilidade de transcendência. M.L.

3. Dirty Projectors
Bitte Orca
Domino, distri. Edel

A música dos nova-iorquinos parece feita por alguém que leu sobre pop sem ter ouvido pop. Mas não é apenas o edifício sónico. Também a forma de cantar de Dave Longstreth é invulgar. "Rise Above", do ano passado, já era uma obra maior, mas agora o grupo criou algo ainda mais emotivo. Canções com um centro reconhecível mas desestruturadas por ritmos complexos, território livre (rock, blues, R&B, country, clássica, pop) de onde sobressaem guitarras que evocam África, orquestrações e estranhas mas harmoniosas vocalizações. V.B.

4. Mulatu Astatke
Mulatu Astatké & The Heliocentrics
Strut, distri. Symbiose

O mais improvável dos encontros deste ano resultou numa obra que define o futuro do funk a partir do passado da música africana. Mulatu Astatke, etíope de nascença e jazzman do coração, viveu décadas como músico de culto, semi-consagrado como o inventar do jazz etíope. Ao lado dos Heliocentrics reescreveu faixas, escreveu temas novos, e o jazz estilhaçou-se em funk cósmico, soul psicadélica, jams enlouquecidas num disco de força brutal e, paradoxalmente, total controlo. V.B.

5. The xx
xx
Young Turks, distri. PopStock

Em primeiro lugar está a estrutura. Um ritmo, uma linha de baixo, uma guitarra serpenteante, em redor espaço, e duas vozes num jogo de movimentos circulares. Canções assim, descarnadas, podem ser destituídas de calor. Não é o caso. É um disco de uma era onde já não interessa caracterizar os géneros. O quarteto inglês definiu uma sonoridade contaminada por múltiplas temporalidades, música de aderência imediata, capaz de tocar várias gerações com uma facilidade desconcertante. V.B.

6. Micachu & The Shapes
Jewellery
Rough Trade, distri. PopStock

Quando Mica Levi canta "this sound is everywhere but it can't be found" captura em verso aquilo que "Jewellery" tem de tão especial. A matéria de que é feita a sua música, ecos do grime, zumbidos digitais, pulsar pop, guitarras indie ou sons resgatados a objectos improváveis, rodeia-nos diariamente, num ruído incessante a que não conseguiríamos escapar. Ora, Micachu & The Shapes deram um sentido a tudo isso e transformaram música disfuncional numa das mais entusiasmantes revelações pop de 2009. M.L.

7. João Coração
Muda Que Muda
Flor Caveira, distri. Mbari

Há um ano Coração estreava-se num disco de canções vagabundas, sustentadas na sombra de Tom Waits. Agora reescreve-se como o mais odiado ícone pop português, ébrio cantador de exímio humor ambíguo, narrador de amores perdidos, verões cuja alegria reside na melancolia de sabermos que o bom tempo não vai durar. Há duetos à Gainsbourg, melodias country-tuga, órgãos vintage com o crepúsculo no fim de um compasso trôpego, harmónicas, trompetes e melódicas. Salvou-nos o Verão. J. B.

8. The Antlers
Hospice
Frenchkiss, distri. Symbiose

As coordenadas musicais remetem para a herança do rock oceânico, arty e progressivo, sugerindo comparações que vão de Flaming Lips a Spiritualized, passando por Arcade Fire e Sigur Rós. O que faz dele um disco tão avassalador é o abandono de Peter Silberman. É a sua voz doce e anémica, mais os teclados sonambólicos que a vão embalando, os crescendos radiosos e os decrescendos terminais das guitarras, os sopros que soam a juízo final, mais as baterias que recriam o ruído opressivo de asas de helicópteros. É uma experiência que não apazigua, mas se funde de tal forma com a mortificação que a torna fascinante. L.M.

9. Bill Callahan
Sometimes I Wish We Were An Eagle
Domino, distri. Flur

Após quase 20 anos a ser descrito como rei do lo-fi misógino, Bill Callahan aproxima-se da canção clássica: uma guitarra dedilhada, cordas sumptuosas, a voz grave e colocada e pouco mais é preciso para fazer canções de uma finura, classe e talento melódico como é raro ver. A escrita, essa, ocupa-se menos de mulheres pouco confiáveis e encontra delicadas imagens telúricas de insuspeita precisão para falar de um só assunto: não sabermos nada do que andamos aqui a fazer. J.B.

10. Sunn O)))
Monoliths & Dimensions
Southern Lord

Um coro feminino, gente do jazz, do metal e da música experimental juntaram-se a Greg Anderson e Stephen O'Malley, o duo central dos Sunn O))), para fazer um dos discos da década no que toca à música não catalogável. As guitarras graves e lentas mantêm-se como o esqueleto desta música, mas nunca os Sunn O))) foram tão ambiciosos e estimulantes. Não é jazz, nem música clássica moderna, nem metal, mas tudo isso, e mais, num brilhante estilhaçar de fronteiras. Como superar uma obra deste arrojo? P.R.

11. The Sa-Ra Creative Partners
Nuclear Evolution: The Age Of Love
Ubiquity, distri. Symbiose

A maior parte dos temas parte de impulsos voluptuosos de hip-hop, rodeados por vozes soul, configurações funk, atmosferas cósmicas e improvisos jazzísticos, como se dissolvessem e, ao mesmo tempo, remontassem uma série de idiomas. Em cada canção do trio de L.A. podem ser invocadas referências (Prince, Funkadelic, Sun Ra, OutKast, Spacek) mas em nenhum momento ficam dúvidas que afirmam uma sonoridade sua, expondo desejo de futuro. V.B.

12. Cave Singers
Welcome Joy
Matador, distri. EMI-MP

Soa estranhamente familiar o segundo álbum dos Cave Singers, trio formado por gente originária de bandas punk do circuito de Seattle que ao juntar-se inflectiu para a folk em versão indie. Essa referência é ainda dominante em "Welcome Joy" que, no entanto, inflecte frequentemente para o rock ácido que fez época na segunda metade dos anos 60. O cantor Peter Quirk assume um registo afectado e andrógino e a instrumentação é esparsa. É toda uma paleta de variações, convincentes, sobre o clássico guião "americana". Começa a ouvir-se como um desafio e quando menos se espera já se entranhou. L.M.

13. B Fachada
B Fachada
Mbari

As canções são o seu ofício e, este ano, tivemos direito a dois discos. O primeiro, "Fim-de-Semana No Pónei Dourado", era um mosaico de canções onde o seu óbvio talento como compositor, como cantautor imprevisível, se manifestava de mil formas. Com "B Fachada", o último, o artesão juntou o jeito natural para dar à mão a um deslumbrante momento de inspiração. É um disco imenso de um músico em estado de graça. Daqueles que figurarão na história pop cá de terra. M.L.

14. Emeralds
Emeralds
Gneiss Things

Uma das tendências de 2009 na música que se faz nas margens da pop foi a exploração de um território esquecido, a "new age", ligando-o à música alemã de sintetizadores feita na década de 70 (Harmonia, Cluster). Os Emeralds estiveram no centro dessa tendência e o disco homónimo foi aquele em que atingiram resultados mais notáveis. Camadas de sintetizadores e um solo de guitarra confluem para as cósmicas "Geode" e "Diotima". Noutros temas o grupo norte-americano explora o lado mais espectral da "kosmische musik" alemã, evocando sistemas solares distantes, sempre com rara precisão. Emeralds: uns dos grandes da moderna música das margens. P.R.

15. Mayer Hawthorne
A Strange Arrangement
Stones Throw, distri. Flur

Numa época em que a recuperação da soul clássica está tão em voga que Amy Whinehouse é vista como deusa, vale a pena pôr os ouvidos neste disco perfeito: Hawthorne é aluno bem atento de Smokey Robinson, Holland-Dozier-Holland e Curtis Mayfield, e copia-os mas com o cuidado de quem ama a soul. Há singles perfeitos, grandes linhas de baixo, cordas de arrepiar e metais à antiga. O melhor disco negro de 1969 é de um branco e é de 2009. J.B.

16. The Very Best
Warm Heart Of Africa
Moshi Moshi, distri. PopStock

Dois produtores - um francês e um sueco - e um cantor do Malawi, residentes em Londres, num álbum de canções inspiradas pela África contemporânea. Entre os convidados, Ezra Koenig dos Vampire Weekend e M.I.A.. Os Very Best não olham a tipologias, apesar de se distinguirem traços de músicas como o kwaito, o kuduro ou electrónicas, mas sim à atitude que a música transporta. A maior parte dos temas assume uma tonalidade intercontinental, caleidoscópio do mundo de hoje, jogo de figuras que se intersecta, expostas em canções lúdicas. V.B.

17. Junior Boys
Begone Dull Care
Domino, distri. Edel

A música dos canadianos parece deslocada no tempo, alimentada pela nostalgia. Ao terceiro álbum, os objectivos não se alteraram: canções de teor clássico a partir de programações e texturas electrónicas. Agora partem dessas coordenadas, mas atribuem-lhe uma tonalidade ainda mais romântica, em canções que se desenvolvem como rigorosas aguarelas sonoras, aperfeiçoadas por resíduos digitais, vozes lânguidas, cadências em câmara lenta e um entendimento minucioso de formas, tempos e espaços. V.B.

18. Fever Ray
Fever Ray
Rabid Records, distri. PopStock

As letras de Keren Dreijer falam de isolamento e solidão, e o som é electronicamente orgânico. Tal como na música dos Knife, o duo que divide com o irmão, também no projecto Fever Ray somos induzidos para um estado liminar. É uma electrónica cortante, introspectiva. Existe qualquer coisa de submundo aqui, sombreados a preto e branco, sugestões plásticas abstractas, mas as formas são elegantes e o som metalizado é transparente, espécie de realismo mágico que causa estranheza, num primeiro instante, para de seguida nos agarrar. V.B.

19. Dâm-Funk
Toeachizown
Stones Throw, distri. Flur

O disco mais autista do ano é também o disco mais futurista do ano. Dâm-Funk fechou-se num quarto escuro em L.A., encheu-o de sintetizadores saídos dos discos de jazz de fusão dos anos 70, namorou com o electro inicial da década de 80, abusou de caixas de ritmo (maiores de idade), chicoteou o baixo com tensão e em vez de fazer trabalho de monge copista escreveu um disco único, uma redução do funk ao seu músculo fundamental, uma viagem pós-festa ressacada. J.B.

20. Times New Viking
Born Again Revisited
Matador, distri. PopStock

Se o rock'n'roll continua a ser expressão capaz de nos erguer da modorra dos dias, tal deve-se a bandas como os Times New Viking. Apresentados como nome destacado da vaga lo-fi, destacam-se naturalmente. Há na sua música um romantismo feroz que nos transporta na sua voragem, bem como uma consciência da história pop que, sem reverência, aponta a nomes como Wipers, Guided By Voices ou uns Sonic Youth nascidos na recta final da década de 1960. E há canções como "Move to California" ou "No time no hope" que os firmam gloriosamente neste presente que vivemos. M.L.

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