quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Os Melhores Discos de 2007 - Público

MÚSICA/POP
Escolhas de João Bonifácio, Mário Lopes, Nuno Pacheco, Pedro Rios e Vítor Belanciano

1. M.I.A.
Kala

(...) Há dois anos não havia prateleira para ela. Agora, depois dos brasileiros Bonde do Role, dos portugueses Buraka Som Sistema, dos americanos Spank Rock, da inglesa Lady Sovereign ou do inglês Switch - seu principal aliado na produção de "Kala" - já não está só. Na paisagem actual é ela que desafia de forma mais consistente ideais de homogeneidade cultural, movendo-se entre zonas difusas, intersecções, margens, interrogando no processo quem contamina quem, e surgindo aos nossos ouvidos, vibrante, foliona, uma agente pop revitalizante no melhor sentido da expressão. (...)

2. Tinariwen
Aman Iman

(...) A tensão entre polifonia, ritmo e harmonia cria espirais hipnóticas que obrigam à dança compulsiva - nem os ocidentais resistem. Faz por isso todo o sentido que tenham assinado por uma editora de guitarras em vez de uma de "world music": esta música merece chegar a toda a gente, é boa demais para a maior das gentes mas merece chegar a toda a gente. (...) João Bonifácio

3. LCD Soundsystem
Sound Of Silver

O homónimo álbum de estreia estava tão imbuído do espírito dos tempos que julgámos impossível que reincidissem como em "Sound Of Silver". Mantendo como método criativo a aglutinação de referências - o kraut, o punk, a house, a pop - mas fazendo de cada canção uma eufórica, humorada ou deprimida elegia aos tempos que vivemos. Os LCD de James Murphy como actores (ainda e renovadamente) indispensáveis da música popular urbana actual. M.L.

4. Panda Bear
Person Pitch

Não lhe chamaríamos o OVNI do ano porque há nele demasiado de reconhecível - é a alquimia da montagem que causa perplexidade. Com um computador, um generoso banco de sons pilhados às mais diversas proveniências e dois microfones, Panda Bear (Noah Lennox) criou um objecto tocante e inclassifi cável. Um álbum único. Incomodaria alguém chamar-lhe "obra-prima"? M.L.

5. Burial
Untrue

Um ano depois da estreia, o esteta londrino Burial regressou com outra obra admirável. Disco de silhuetas, evocando cidades adormecidas povoadas por seres solitários, tacteando na escuridão. Há cadências rítmicas disjuntas que se desenvolvem vagarosamente e vozes que se diluem por entre camadas de som vindas de paragens longínquas. São canções, mas rodeadas de abstracção. São indícios, fantasmas que se agitam ao som de música remota, distorcida no contexto de um sonho. Assombroso. V.B.

6. The National
Boxer

Dos metais de "Fake empire" que abrem o disco ao "Gospel" que o fecha, são 12 quadros de tensão doméstica, pianos e cordas suportados por um baterista endiabrado, uma "não inocente, elegante queda nas vidas não magnífi cas dos adultos". Harmonicamente irrepreensível, sem priapismos orquestrais, é um herdeiro directo de um Cohen de classe média Sublime. J.B.

7. The Go! Team
Proof Of Youth

Quando chegou "Proof Of Youth" e percebemos que "Grip Like a Vice", o primeiro single, não enganara ninguém, não tivemos tempo para erguer os braços ao céu e agradecer às divindades - estávamos eufóricos demais para isso. Os Go! Team são a banda mais cool do mundo e têm a música e as referências ideais para acompanhar a distinção: "Blaxploitation", hip-hop velha guarda, policiais da década de 1970, Sonic Youth... "Proof Of Youth" é o seu melhor álbum. M.L.

8. Justice
Cross

Excessivo e barroco, emblema geracional entre o tecno, o metal e a pop, eis o álbum de uma dupla francesa que restituiu o frenesim às pistas de dança. Há temas que parecem blocos sólidos de metal à beira da defl agração, esforçando por se balancear, enquanto os outros parecem carregados de afectividade infantil, aproximando-se de estruturas pop, numa imparável orgia sónica onde tudo é triturado de forma irregular, construindo um universo radical. V.B.

9. Pedro Jóia
À Espera de Armandinho

Ao estudar e abordar, por impulso apaixonado, o universo criador do "pai" da guitarra lisboeta, Pedro Jóia supera-se e a sua guitarra clássica transfi gura-se. Para se deixar possuir, de forma brilhante, pela alma da guitarra portuguesa. Jóia, que é na verdade um virtuoso, tem aqui a modéstia de refrear o virtuosismo para nos brindar com uma recriação autêntica, tocante e musicalmente genial do universo de Armandinho, expoente da alma do fado. N.P.

10. David Maranha
Marches of the New World

É o disco mais importante de um ano imparável para o português David Maranha, membro da instituição experimental Osso Exótico. Álbum notável, situa-se algures entre a hipnose minimalista de Tony Conrad e o lado mais exploratório de uns Velvet Underground. Em círculos constantes sobre si mesmo, interminável e estático, o seu som revelase plenamente quando tocado em alto volume. P.R.

11. Joe Henry
Civillians

É possivelmente o melhor disco de Joe Henry, certamente o mais celebrado. Repositório das tradições americanas, que celebra o jazz fumarento, a country amarga e o sujo do vaudeville. Desde "Scar" que Henry aplica essas matérias primas a música que parece constantemente prestes a tombar. "Civillians" olha para histórias de americanos de hoje como se fossem as de sempre desde que a noite escura deu lugar ao "american dream". J.B.

12. Arcade Fire
Neon Bible

Ao segundo álbum confirmam-se como a banda rock mais relevante da actualidade. As canções são sobre a linha ténue que separa o confi ar que a vida pode ser estupidamente feliz ou um tremendo equívoco, numa música que aceita a desordem, supera-a, acredita na transcendência. Há muito que o rock não tinha nada assim. V.B.

13. Beirut
The Flying Club Cup

Um conjunto de irrecusáveis canções pelo jovem Zach Condon, 21 anos, que ao segundo álbum se revela um autêntico cidadão do mundo virtual. Encantando-se, tocando e administrando uma panóplia infi ndável de instrumentos, devolvenos, ao mesmo tempo, um punhado de canções sonhadoras, inspiradas pela canção francesa ou pela música dos Balcãs, numa espécie de orquestra ambulante ou fanfarra nostálgica que nos envolve serenamente. V.B.

14. Robert Wyatt
Comicopera

Um veterano que soube adaptar-se e transcender as mudanças do tempo, num disco dividido onde aborda a fragilidade das relações, o caos e as possibilidades de o transfi gurar. Quarenta anos depois da estreia, desafi a certezas, faz a ponte entre lutas íntimas e planetárias, melodias pop à fl or da pele e investigação sónica inspirada no improviso do jazz. V.B.

15. JP Simões
1970

Já em "La Toilette Des Étoiles", segundo disco dos Belle Chase Hotel, ele namoriscava a canção brasileira clássica e mais tarde, com o Quinteto Tati, o namoro deu em noivado. "1970", o disco de estreia a solo, é o casamento, mas a bossa de perfeitos arranjos serve para narrar separações, cabeçadas, e aquela melancolia que é mais portuguesa que brasileira. Disco de canções imaculadas e palavras de uma justeza que chega a ser cruel. J.B.

16. Battles
Mirrored

Confirmação dos novaiorquinos como uma das bandas mais desafi antes dos nossos dias, capaz de esticar os limites do rock. É um daqueles registos onde a estridência do rock, o som metalizado, estruturas jazzísticas, formas de apreender espaço e tempo inspiradas nas electrónicas ou minimalismos se confundem num ritual que coloca tudo em causa. Como se decompusessem fragmentos de rock, jazz ou das electrónicas abstractas, para exercitar o físico e a mente. V.B.

17. Fiery Furnaces
Widow City

A inconstância dos Fiery Furnaces é tão lendária quanto o seu sopro de génio. Num minuto, editam singles pop irrepreensíveis; no seguinte, lançam-se a uma experiência falhada como "Rerhearsing My Choir". "Widow City" é dos bons. Equilibrado entre pop aromatizada de vaudeville, explosões rock e acessos experimentais, há até quem arrisque dizer que supera a obra-prima "Blueberry Boat". M.L.

18. Amélia Muge
Não Sou Daqui

Dos cinco discos que Amélia Muge gravou a solo, "Não Sou Daqui" é o mais ambicioso e, do ponto de vista conceptual, o mais conseguido. Ao interrogar a canção como "lugar de lugares", inclui canções belíssimas, ao nível das melhores que já escreveu: "Arena", "Entre o deserto e o deserto", "Na noite mais escura", "O anjo" ou "Quem vier que venha". Os poemas (dela mas também de Ramos Rosa, Sophia, Hélia Correia e Eugénio Lisboa) são muitos bons, a música e os músicos idem. Um registo essencial. N.P.

19. Matthew Dear
Asa Breed

Entre configurações rítmicas próximas do tecno minimalista, a electrónica mais fantasista e as estruturas pop mais inventivas, eis o trabalho que confi rma o norte-americano como um dos mais fascinantes criadores da actualidade. Ao terceiro álbum, assume-se como um dos mais estimulantes reformadores da pop em canções com vista para as ramifi cações pós-punk ou sequências tecno, criando um híbrido excitante. V.B.

20. Norberto Lobo
Mudar de Bina

Se os concertos indiciavam que daqui sairia algo de especial, o álbum foi uma epifania. Norberto Lobo e uma guitarra. Uma homenagem a Paredes, no título e na versão de "Mudar de vida", uma alma portuguesa respirando nas seis cordas e a sua tradição devidamente globalizada. Encontramos John Fahey nas versões de canções tradicionais portuguesas, encontramos o blues num miradouro lisboeta. Encontramos Norberto Lobo e descobrilo foi uma das melhores coisas deste ano. M.L.





MÚSICA/JAZZ
Escolhas de Nuno Catarino, Paulo Barbosa e Rodrigo Amado

1. Fred Anderson / Hamid Drake
From the River to the Ocean
Thrill Jockey / Dwitza

(...) Registo vibrante, gravado em quinteto, com direcção espiritual de um dos maiores saxofonistas tenor vivos, Fred Anderson. Reafirmando um momento de excelente forma do lendário saxofonista de Chicago, "From the River to the Ocean" é um capítulo maior na sua discografia. Anderson exercita aqui o seu lado mais "mainstream" ao realizar uma música simples e directa, altamente eficaz, que atinge pontos de maior intensidade, incandescente por vezes, durante as suas brilhantes e caleidoscópicas improvisações. (...)

2. Enrico Rava
The Words and the Days
ECM / Dargil

É, para muitos, o herdeiro da chama poética de Miles Davis. Comparações à parte, é um dos mais brilhantes improvisadores europeus. "The Words and the Days", registo superlativo para o seu novo quinteto, vem na sequência de uma série de obras de referência de um jazz europeu "cool".

3. David Torn
Prezens
ECM / Dargil

Alquimista do estúdio e guitar-hero futurista, projecta a sua marca no jazz contemporâneo. A seu lado, três dos maiores improvisadores norte-americanos: Tim Berne, Craig Taborn e Tom Rainey. Música atmosférica, densa e progressiva, que destila de forma única o orgânico e o sintético.

4. Derek Bailey
Standards
Tzadik / Flur

Inesperado e surpreendente... talvez para alguns. O último registo do genial guitarrista surge na sequência de outra gravação, "Ballads", e encena o confronto entre a linguagem fragmentária e livre de Bailey e as estruturas mais formais da canção jazz. Um diferente ponto de vista, tão necessário como benéfi co à regeneração da linguagem jazz. R.A.

5. Maria Schneider
Sky Blue
ArtistShare

Veio reafirmar Maria Schneider como a mais extraordinária compositora e orquestradora de jazz. No conjunto da sua discografi a, "Sky Blue" brilha bem alto, constituindo os cinco temas que o compõem um verdadeiro manifesto de criatividade, conhecimento e integridade artística. Gil Evans ficaria orgulhoso. R.A.

6. João Paulo Esteves da Silva
Memórias de Quem
Clean Feed / Trem Azul

É um prazer assistir à crescente afi rmação daquele que é, para muitos, o grande pianista de jazz nacional. Principalmente porque, se há um jazz português, esse é concerteza o de João Paulo. Em "Memórias de Quem", o seu disco mais pessoal, o piano solo evoca melodias portuguesas e sefarditas, e constrói um registo pleno de poesia e espiritualidade. R.A.

7. Dave Douglas
Live at the Jazz Standard
Greenleaf Music / Dwitza

"Live at the Jazz Standard", gravado ao vivo em Nova Iorque, reúne Douglas, o "whiz kid" do trompete, a Donny McCaslin, Uri Caine, James Genus e Clarence Penn. Com temas retirados de um conjunto originalmente editado para "download" apenas através do site da editora, este registo apresenta 16 composições de Douglas nunca antes editadas em CD. Pós-bop vibrante e de alto impacto! R.A.

8. William Parker Raining On the Moon
Corn Meal Dance
AUM Fidelity / Trem Azul

William Parker esteve no nosso país, integrado no trio de Matthew Shipp, para nos relembrar da força que o seu contrabaixo transporta. Em "Corn Meal Dance" reúne de novo o projecto Raining On The Moon e arranca um dos mais inspirados registos da sua carreira. Mais próximo das vibrações soul e R&B do que do free-jazz, o contrabaixista evoca os sons de Don Cherry e Pharoah Sanders. R.A.

9. André Fernandes
Cubo
Toneofapitch / Dargil

O mais recente registo de André Fernandes vem confi rmar a sua posição na linha dianteira do jazz nacional. Salto evolutivo e brilhante depuramento de complexidades musicais, "Cubo" regista a música da grande formação jazz do momento; a guitarra do líder juntase a Mário Laginha no piano, Nelson Cascais no contrabaixo e Alexandre Frazão na bateria. R.A.

10. Brian Groder
Torque
Latham Records

Ainda no início de 2007, este registo do trompetista Brian Groder apanhou-nos de total surpresa. O impacto de ouvir as linhas fortes e incisivas criadas pela "front-line" de Groder com o veterano saxofonista Sam Rivers foi grande, libertando ondas de choque que se farão sentir por muito tempo. Foco, agilidade e uma empatia criativa rara. R.A.

11. Mário Laginha Trio
Espaço
Clean Feed / Trem Azul

2006 e 2007 foram, para Mário Laginha, anos de regeneração intensa. Após anos de partilha musical com a cantora Maria João, procura os seus próprios pontos de referência. Primeiro com o excelente "Canções e Fugas", e agora com "Espaço", registo referência do jazz português actual. Com Bernardo Moreira e Alexandre Frazão, Laginha voa alto na exuberância melódica e rítmica do seu novo trabalho. R.A.

12. Evan Parker / John Edwards / Chris Corsano
A Glancing Blow
Clean Feed / Trem Azul

Três músicos de excelência num encontro de duas gerações distintas de improvisadores; de um lado, o veterano saxofonista Evan Parker e o contrabaixista John Edwards, do outro, o menino prodígio da improvisação livre mundial, o baterista Chris Corsano. R.A.

13. Alípio C. Neto Quartet
The Perfume Comes Before the Flower
Clean Feed / Trem Azul

Com uma actividade imparável desde que chegou, há anos, ao nosso país, o brasileiro Alípio Neto depressa se tornou num caso sério do jazz criativo nacional. Depois de dois registos editados sob a designação de colectivos, editou o registo que faz justiça ao seu enorme talento.É energia pura, comunicação musical intensa e um caso raro na associação entre forma, improvisação e espiritualidade. R.A.

14. Orquestra de Jazz de Matosinhos
Invites Chris Cheek
Fresh Sound New Talent / Dwitza

O talentoso saxofonista Chris Cheek é um dos músicos estrangeiros que têm colaborado com a Orquestra Jazz de Matosinho. A Orquestra deu, nos últimos três anos, um salto qualitativo gigante que culminou, em 2007, na edição de "Portology" e "Invites Chris Cheek". Este último veio renovar a esperança de um jazz português com impacto e relevância internacionais. R.A.

15. João Lencastre's Communion
One!
Fresh Sound New Talent / Dwitza

Com "One!" o baterista realizou uma das estreias discográficas mais impactantes de sempre, no nosso país. Para além disso, realiza a assinalável proeza de conseguir reunir um conjunto pouco provável de grandes talentos (Bill Carrothers, Phil Grenadier, Demian Cabaud e André Matos) e com eles gravar um registo cuja consistência é característica do trabalho de músicos bem mais experientes. R.A.





MÚSICA/CLÁSSICA
Escolhas de Cristina Fernandes, Pedro Boléo e Rui Pereira

1. J. S. Bach
Sonatas
Viktoria Mullova (violino), Ottavio Dantone (cravo) Onyx (2 CD)

(...) O som do violino de Viktoria Mullova nas Sonatas para violino e cravo, de J. S. Bach - com a cumplicidade do cravista Ottavio Dantone - é de uma beleza incisiva. É música que apetece ouvir e reouvir, de uma energia contagiante nos andamentos rápidos (ou mesmo fulgurante como no "Allegro" final da Sonata em Mi Maior BWV 1016 ou no jogo concertante do "Allegro" inicial da BWV 1019) mas também de uma delicada e nobre inspiração nos andamentos lentos. (...)

2. Volodos Plays Liszt
Arcadi Volodos (piano)
Sony Classical

Quando surgiu o primeiro disco de Volodos, com um estonteante programa de transcrições, o pianista foi anunciado por alguns como o futuro Horowitz e por outros como um mero virtuoso. Quando saiu o registo com Schubert, pareceu confi rmar a sua posição mas ainda deixou dúvidas. Agora, com Liszt, consegue o que, curiosamente, Horowitz dizia ser necessário para interpretar o maior virtuoso da história da música: ser ao mesmo tempo anjo e diabo. Com obras dos "Cadernos de Peregrinação", as "Lendas", os "Funerais" das "Harmonias Poéticas e Religiosas" e uma "Rapsódia Húngara", Volodos mostra-se como um dos melhores intérpretes de sempre do piano. Como dizia Horowitz, para ser mais do que um virtuoso, primeiro, é preciso ser virtuoso. Isso já Voldos provou. Este é o seu disco de consagração. R.P.

3. Emmanuel Nunes
Emmanuel Nunes Remix Ensemble,
direcção Peter Rundel
Remix/Casa da Música

Um belo disco de duas obras de Emmanuel Nunes, interpretado por um dos grupos que melhor conhece a sua música e que mais a tem divulgado dentro e fora de Portugal nos últimos anos, o Remix Ensemble. Emmanuel Nunes é dos compositores portugueses mais conhecidos na Europa. Este disco permite a sua descoberta também pelo público português. A abrir o apetite para a estreia da sua ópera "Das Märchen", em Janeiro. P.B.

4. Johann Sebastian Bach
Missa em Si menor BWV 232
Mechthild Bach, Daniel Taylor, Marcus Ullmann, Raimund Nolte Kammerchor Stuttgart Barockorchester Stuttgart Frieder Bernius
Carus 83.211

Recorrendo a efectivos de dimensões médias, esta notável interpretação da Missa em Si menor consegue o justo equilíbrio entre a força exaltante das passagens corais mais grandiosas e a transparência da textura musical. Frieder Bernius realça de forma fascinante as linhas mais graves (vocais e instrumentais) e escolhe andamentos que conferem o impulso e a respiração ideal ao discurso de Bach. A luminosidade do magnífi co Kammerchor Stuttgart e a defi nição rítmica são outros pontos a realçar numa versão que se caracteriza por uma energia vibrante mas também pela serenidade contemplativa. C.F.

5. Joseph Haydn
Quartetos opus 9
London Haydn Quartet
2CD Hyperion CDA67611

O disco de estreia para a Hyperion do London Haydn Quartet, agrupamento formado por especialistas no domínio da música Barroca, é um fenómeno de requinte ao nível sonoro e uma surpresa muito agradável que mostra como os conhecimentos estilísticos no domínio da música antiga podem benefi ciar música de outros períodos, nomeadamente do Classicismo. Apesar de existirem no mercado mais duas versões com instrumentos de época, esta foi uma das revelações do ano: não só dos intérpretes mas da própria música que ganha um outro colorido. R.P.

6. Ockeghem
Missa Caput e Machicotage Parisien Graindelavoix
Björn Schmelzer Glossa Platinum

Desafia as convenções interpretativas da música sacra renascentista através da recriação das práticas de ornamentação do cantochão conhecidas como "machicotage". Os Graindelavoix aplicam essa técnica a uma obra como a Missa "Caput", de J. Ockeghem (c. 1410- 1497). Parte da força telúrica da interpretação decorre do uso de vozes não uniformizadas por um ensino do canto académico, mas talvez a melhor defi nição seja a de Björn Schmelzer: "Libertar a música de Ockeghem (e a polifonia do século XV em geral) das suas conotações pseudoetéreas, da sua correcção pseudo-profi ssional e do seu tédio pseudo-histórico." C.F.

7. Felix Mendelssohn
Sinfonias n.º 4 e 5 La Chambre Philharmonique Emmanuel Krivine
Naïve

Quando uma interpretação nos faz gostar muito de uma obra é sinal que deve ser boa. Esta é uma máxima que muito se adapta a este CD. Não tendo dúvidas de que as Sinfonias de Mendelssohn são obrasprimas da história da música, a dinâmica conseguida na interpretação de Emmanuel Krivine é de tal forma empolgante que faz deste disco uma das grandes revelações do ano, dando a conhecer um Mendelssohn enérgico e, simultaneamente, harmonioso. Um disco que merece ser destacado por abordar com muito interesse repertório sobejamente conhecido. R.P.

8. Beethoven
Diabelli Variations
Vladimir Ashkenzy
Decca Classics/ Universal

Não são as melhores variações Diabelli de sempre, mas a versão madura e tecnicamente irrepreensível de Vladimir Ashkenazy editada este ano merece um destaque. Ashkenazy viu este ano editadas também duas caixas ("Personal Collection" e o conjunto de todas as sinfonias de Chostakovitch) que premeiam a carreira de um excepcional intérprete e maestro. P. B.

9. Antonio Vivaldi
La Petite Bande
direcção de Sigiswald Kuijken
Accent

Uma versão das Quatro estações que podia fi car esquecida no meio de tanto Vivaldi editado nestes últimos anos. Kuijken mostra a sua enorme maturidade e conhecimento da música antiga e consegue, da mais conhecida obra do barroco italiano, fazer uma proposta fresca e renovada deste "greatest hit". P. B.

10. Stefano Landi
La morte d'Orfeo Ensemble Akadêmia Françoise Lasserre (direcção)
Zig-Zag Territoires (2 CDs)

"La Morte d'Orfeo", de Stefano Landi (1586/87-1639), contava com uma única gravação de referência efectuada há 20 anos. Com o registo do Akadêmia, surge uma segunda opção que prima pela qualidade e faz justiça à originalidade da obra. O "Orfeo" de Landi não possui um verdadeiro confl ito dramático, mas a acção é transmitida por música plena de invenção e de contrastes. Cerca de 20 personagens são repartidas por 13 cantores. As cenas de conjunto contêm passagens deliciosas como a intervenções dos "três ventos", os coros dos Sátiros e das Ménades ou os Ecos que ampliam o canto de Nisa. P. B.

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