segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Os Melhores Discos dos Anos 80 - Fernando Magalhães (1ª metade: 1980-1984)

Fernando Magalhães (1955-2005) foi jornalista e crítico musical do jornal Público desde a sua fundação.
No Blitz (no tempo em que ainda era jornal), na edição de 16-01-1990, na rubrica "Valores Selados", escreveu o artigo seguinte.

O BALANÇO INSTÁVEL


Cabe-me a mim, finalmente, fazer o balanço dos melhores discos da década (esta semana a lista dos quinze melhores dos anos de 1980 a 1984. A outra metade fica para a semana. Decerto repararão que desta lista constam muitos nomes estranhos e desconhecidos. A culpa não é minha. Procurem-nos e talvez cheguem à conclusão que nem sempre a melhor música é a mais badalada. Para não dizerem que invento, informo que todos os discos mencionados fazem parte de minha colecção particular. E agora podem começar a copiar e a lamentar o tempo perdido…

1980

Alan Stivell: «Symphonie Celtique – Tir Na Nog» (Todas as músicas e tradições do mundo convergindo na Bretanha).

Cabaret Voltaire: «The Voice of America» (Quando ainda eram ameaçadores).

Captain Beefheart & His Magic Band: «Doc at the Radar Station» (o esquizofrénico genial de «Trout Mask Replica»).

Chrome: «Red Exposure» (Americanos precursores de tudo o que é industrial).

Flying Lizards: «The Flying Lizards» (David Cunningham e a vanguarda como grande paródia).

Fred Frith: «Gravity» (Frith é um universo inteiro à parte).

Harold Budd/Brian Eno: «Ambient 2 The Plateaux of Mirror» (o mundo cristalino).

Jon Hassell/Brian Eno: «Fourth World, Vol. 1 Possible Musics» (a selva electrónica).

Monochrome Set: «Strange Boutique» (dandies dos eternos 60s. Tommy, can you hear me ?).

Negativland: «Negativland» (a América do avesso pelos mestres da colagem).

Pere Ubu: «The Art of Walking» (o rock à beira do abismo, sem cair).

Peter Hammill: «A Black Box» (o último voo a grande altura de eterno romântico).
Talking Heads: «Remain in Light» (com Eno desta vez luxuriante).

Tuxedomoon: «Half-Mute» (os americanos mais europeus do mundo).

Univers Zero: «Ceux du Dehors» (a nova música de câmara europeia passa por estes belgas apreciadores de Lovercraft).

1981

Art Bears: «The World as it is Today» (Fred Frith, Chris Cutler e Dagmar Krause anunciando o fim do mundo).

Brian Eno/David Byrne: «My Life in the Bush of Ghosts» (sim, já se sabe, o primeiro a fazê-lo foi Holger Czukay, mas eles não se importam).

Carla Bley: «Social Studies» (a sociologia da fanfarra pela senhora sempre bem acompanhada).

Heaven 17: «Penthouse and Pavement» (os derradeiros estertores da Pop electrónica inteligente).

King Crimson: «Discipline» (Robert Fripp e as técnicas mágicas da J.G. Bennett).

Kraftwerk: «Computer World» (o melhor disco do séc. XXI).

Marc Hollander: «Onze Danses pour Combattre la Migraine» (o homem dos Aksak Maboul e o «Vaudeville» minimalista).

Meredith Monk: «Dolmen Music» (o nascimento da voz humana).

Nick Mason/Carla Bley: «Fictitious Sports» (Carla, outra vez, brincando ao Rock. Tomara este que houvesse mais brincadeiras assim. Mason é só um pretexto).

Penguin Cafe Orchestra: «Penguin Cafe Orchestra» (a caixinha de música onde cabe tudo).

Residents: «Mark of the Mole» (Os Beatles dos anos 80? Dos 90? Mas quem são eles afinal?).

Soft Cell: «Non-Stop Erotic Cabaret» (Desculpem lá, mas muito antes de Momus já Marc Almond estava a agitar todos os fantasmas).T

his Heat: «Deceit» (o som do holocausto).

Tuxedomoon: «Desire» (Aqui já eram definitivamente europeus. Até perderam a pronúncia).

ZNR: «Barricades 3» (Satie por Zazou ou vice-versa?)

1982

Andy Summers/Robert Fripp: «I Advance Masked» (Frippertronics mais Police pelos mestres da guitarra).

Annette Peacock: «Sky-Skating» (a voz mais sensual em cetim aveludado).

D.A.F.: «Fur Immer» (Um, dois, esquerdo, direito).

Etron Fou Leloublan: «Les Poumons Gonflés» (Captain Beefheart + Henry Cow em tons parisienses).

Fad Gadget: «Under the Sky» (Frank Tovey é uma espécie de Matt Johnson, só que ainda mais doentio).

John Cale: «Music for a New Society» (a sociedade ainda não é suficientemente nova. Ainda bem).

Kate Bush: «The Dreaming» (deixem a menina sonhar).

Laurie Anderson: «Big Science» (deixem a senhora falar).

Michael Nyman: «The Draughtman’s Contract» (música das imagens do labirinto das imagens da música).

Monochrome Set: «Eligible Bachelors» (Ainda e sempre o chá das cinco).

Peter Gabriel: «Peter Gabriel IV» (é o quarto, é o melhor e não embirrem mais com o homem).

Residents: «The Tunes of Two Cities» (segunda parte da luta entre toupeiras e Hrtywxlks).

Snakefinger: «Manual of Errors» (costumava tocar guitarra com os senhores acima. Seria um novo Zappa se não tivesse entretanto morrido).

Soft Veredict: «Vergessen» (Wim Mertens antes de se tornar Merdens – obrigado Jorge).

Terry Riley: «Descending Moonshire Dervishes» (Riley antes de se tomar por profeta).

1983

Art Zoyd: «Les Espaces inquiets» (franceses. Música total. Só gravaram obras-primas).

Benjamin Lew/Steven Brown: «Douzième Journée: Le Verbe, la Parure, l’Amour» (precursores da Made to Measure. Nao sei porquê lembram-me Duras).

Einstuerzende Neubauten: «Zeischnungen des Patienten O.T.» (queriam destruir a música e quase o conseguiram).

Fred Frith: «Cheap at Half the Price» (outra vez, agora em canções Pop. O quê?).

Golden Palominos: «The Golden Palominos» (primeira grande conferência nova-iorquina. Estão lá todos: Fier, Lindsay, Laswell, Zorn. Frith também, claro).

Moebius, Plank, Neumeier: «Zero Set» (alemães, electrónicos e à procura de África).

Peter Blegvad: «The Naked Shakespeare» (o excêntrico dos Slapp Happy em canções ainda mais excêntricas).

Phantom Band: «Nowhere» (o percussionista Jaki Liebezeit continuando brilhantemente o espírito dos Can).

René Lussier: «Fin du Travail» (o Fred Frith canadiano).

Severed Heads: «Since the Accident» (os Throbbing Gristle australianos, mas com humor).

Tom Waits: «Swordfishtrombones» (a Lua na sarjeta).

Virginia Astley: «From Gardens where We Feel Secure» (Onde ficam esses jardins? Silêncio).

Wha Ha Ha: «Wha Ha Ha» (são japoneses. O Free-Jazz pode ser melodioso e dançável).

Yello: «You Gotta Say Yes to Another Excess» (Dieter Meier é suíço, gosta da Europa dos casinos e de computadores).

Zazou/Bikaye: «Noir et Blanc» (Europáfrica em ritmo de dança).

1984

After Dinner: «After Dinner» (mais japoneses. Música de bonecas e cristais).

Andre Duchenes: «Le Temps des Bombes» (as canções de Andre é que caem como bombas).

Brian Eno/Harold Budd: «The Pearl» (até onde é audível o silêncio?).

Débile Menthol: «Battre Champagne» (a boa velha música progressiva continua viva e de boa saúde).

Foetus: «Hole» (gritos. Sofrimento. Auto-Tortura).

Frank Zappa: «Them or Us» (sempre genial. Continua a fazer rir).

Hector Zazou: «Reivax au Bongo» (Zazou e Bikaye reincidentes, agora mais surrealistas).

Holger Czukay: «Der Osten ist Rot» (o homem dos Can que fez tudo antes de Brian Eno e pôs o papa a cantar Blues).

Holger Hiller: «Ein Bundel Faulnis in der Grube» (o mestre absoluto do sampler. Reinventou a música. Nao me voltem a falar nos De La Soul).

Mnemonists: «Horde» (o ruído da deformidade).

Officer!: «Ossification» (música medieval na óptica de um banco de malucos).

Pascal Comelade: «Détail Monochrome» (música ambiental no quarto dos brinquedos).

Penguin Cafe Orchestra: «Broadcasting from Home» (basta sintonizar).

R. Stevie Moore: «Everything You Always Wanted to Know About to Ask About R. Stevie Moore But Were Afraid to Ask» (Ufa! Tem gravadas mais de cem cassetes. Inclassificável. Como é possível ser Pop, experimentalista, doido varrido, sério, etc., etc., etc?).

Test Dept.: «Beating the Retreat» (Metal on metal).

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