sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Os Melhores Discos de 2005 - Público

INTERNACIONAL
Escolhas feitas por João Bonifácio, Kathleen Gomes, Mário Lopes, Pedro Rios e Vítor Belanciano

1. LCD Soundsystem
LCD Soundsystem
DFA

Um "indie kid" fascinado pela cultura pop, um DJ eclético com colecção de discos em correspondência, um pesquisador sónico em busca sons, um punk desejando provocar reacção no público, um pragmático meticuloso e um hedonista despreocupado. Tudo isto é James Murphy, tudo isto são os LCD Soundsystem - a mais bem concretizada marca de actualidade que 2005 nos deu a conhecer, um programa estético que os melómanos descodifi cam avidamente e com um hedonismo exibindo a marca deste início do século XXI.

2. Animal Collective
Feels
Fat Cat, distri. Flur

Épico e vaudevilliano, caleidoscópico e gracioso, "catchy" e audaz, cósmico e mundano: são muitas coisas para chamar a um álbum, e o álbum em questão merece-as todas. Os americanos Animal Collective (que andaram a trilhar os caminhos do extremismo sónico) nunca foram tão despudoramente pop como em "Feels", conjurando guitarras dolentes, percussões tricotantes e goela aberta (a muitas vozes), como putos que ainda brincam aos índios (ou como uns Beach Boys do novo milénio). Em todo o caso, com discos assim, ninguém quer crescer.

3. Arcade Fire
Funeral
Rough Trade, distri. Edel

Será discutível se é o melhor álbum do ano, mas é indiscutível que é aquele que mais revoluções por minuto tem operado na música popular e tudo indica que a história ainda agora começou. Para abreviar: depois dos Nirvana, no campo do rock alternativo, nunca mais tinha havido nada assim. Não surpreende que os americanos falem do Canadá como a "nova Seattle". Editado em 2004, e chegado à Europa em 2005, o álbum é uma obra extraordinária feita de cumes épicos, quadros dramáticos e romantismo psicadélico. É rock, naquilo que tem de mais exaltante e primordial.

4. Six Organs Of Admittance
School Of The Flower
Drag City; distri. Ananana

Ben Chasny sonhou fazer do hipnotismo "zen" de fi ngerpicking folk e da electricidade cuspida por guitarras noise um corpo uno. Se "School Of The Flower", diz o próprio, ainda não é isso, então raramente um falhanço soou tão perfeito. O baterista Chris Corsano corrói a limpidez dos movimentos circulares da guitarra de Chasny com turbulência free-jazz, drones encantatórios combatem com distorções e feed-backs livremente orquestrados. Six Organs apresenta-nos o génio esquecido de Gary Higgins ("Thicker than a smokey"), homenageia Carlos Paredes e, se tudo isto é um falhanço, que Ben Chasny não acerte nunca.

5. Jamie Lidell
Multiply
Warp, distri. Symbiose

Não foi surpresa, porque o seu talento andava por aí à solta há anos (num álbum a solo de electrónica delirante, nos Super Collider, em colaborações com Matthew Herbert ou Mocky e em vibrantes actuações ao vivo), mas poucos poderiam prever que o inglês Jamie Lidell, a viver em Berlim, se transformasse numa fi gura de culto com um álbum de soul-funk digitalizado, onde a exuberância da sua interpretação encontra alimento espiritual na substância digital e cria quadros de tensão a partir da teatralidade vocal e de inusitados ângulos instrumentais.

6. M.I.A.
Arular
XL Recordings, distri. MVM

Numa altura em que é comum dizer que o máximo que a música moderna é capaz de produzir são novas combinações de linguagens gastas, uma jovem do Sri Lanka lançou um álbum absolutamente original. . Maya Arulpragasam, M.I.A., traçou uma sonoridade singular que fará escola nos anos vindouros, feita a partir de músicas abastardadas, como o dancehall jamaicano, o grime londrino, o baile funk das favelas ou das electrónicas encardidas europeias.

7. Kanye West
Late Registration
Roc-A-Fella Records, distri. Universal

No final dos anos 80, quando o hip-hop tentava implantarse, os De La Soul surgiram com um imaginário radioso, cotando-se como alternativa aos aguerridos Public Enemy. Décadas depois, quando o hip-hop é a principal força do mercado americano, Kanye West percebeu também que existia nova fronteira a explorar, longe do imaginário bélico dos subúrbios e das síncopes rítmicas saturadas. Esse espaço foi ocupado com sabedoria e desmesurada altivez. E assim nasceu uma música simples, complexa, com cores soul, harmoniosa.

8. PlantLife
The Return Of Jack Splash
Counterflow, distri. SóHipHop

É um daqueles discos que, como a melhor música dos nossos dias, num só gesto é capaz de resgatar três décadas de música popular e fazê-la coincidir para quatro minutos de uma canção festiva. À frente do leme encontramos a voz de Jack Splash e, na instrumentação, o produtor Panda One. A envolvê-los duas sensuais vozes femininas, Dena Deadly e DJ Rashid, criando um imaginário vibrante onde encontramos Prince, George Clinton, OutKast, funk e "disco" dos 70, electro e póspunk dos 80 e hip-hop e house dos 90.

9. Silver Jews
Tanglewood Numbers
Drag City; distri. Ananana

Resumindo: poeta maior e simultaneamente maior escritor de canções americanas clássicas resolve compor uma ode ao simples facto de estar vivo. Indie-rock, country, cajun, pop - há-de tudo neste disco maior que a vida. Resumindo: um extraordinário mosaico de "americana" e David Berman será o maior escritor de canções americanas actual.

10. Ali Farka Touré & Toumani Diabaté
In The Heart Of The Moon
World Circuit; distri. Megamúsica

O rei da guitarra e o príncipe da kora. A guitarra dá a terra, o movimento lento e circular da terra. A kora vem com nuvens e elementos etéreos. Há um cosmos de delicadeza em "In The Heart Of The Moon". Pequenos relicários de harmonias. Uma ideia de blues estendida pelo tempo. Disco mais tranquilo deste ano. E dos mais belos também.

11. Franz Ferdinand
You Could Have It So Much Better
Domino; distri. Edel

Como superar o álbum de estreia dos Franz Ferdinand, pop de melómano com a história da música dos últimas três décadas na ponta dos dedos e rock'n'roll no menear das ancas? A resposta,"You Could Have It So Much Better", album em que muito parece não ter mudado, mas onde novas subtilezas asseguram não estarmos perante um "remake". Juntese ao caldeirão a verve pop mais progressista de Kinks e McCartney e assomos punk de arestas expostas e, voilá!, os Franz Ferdinand ultrapassam gloriosamente a difícil prova do segundo álbum.

12. Daniel Melingo
Santa Milonga
Naïve; distri. Megamúsica

O tango redescoberto por um pequeno génio. Melingo atira o acordeão para um canto e faz canções com princípio, meio e fi m (embora não obrigatoriamente por esta ordem), narrando as pequenas desgraças com o humor dos eleitos. Refrões perfeitos, uma paleta instrumental enorme. Das maiores surpresas do ano.

13. Jan Jelinek
Kosmicher Pitch
Scape; distri. Flur

Micro-electrónica, micro-doçura, micro-hipnótica. Faixa 3: um jogo rítmico (mínimo) instaura uma dança neuronal feita de subtilezas (mínimas). Loops entram em cadências diferentes. Amplia-se uma partícula e o mundo gira à volta dele. Ou então um acorde menor de um órgão de criança entra em disrupção e há ruído a passar os fi ltros. A electrónica mais cerebral ainda traz os sonhos mais estranhos e fascinantes.

14. Devendra Banhart
Cripple Crow
XL Recordings; distri. Popstock

Era o bardo de guitarra em punho e poesia mística-animistasurrealista na ponta do vibrato. Era ponta de lança da requalifi cação folk de início de século XXI, e adorávamo-lo como elfo de rosto humano cantando universos que não se revelavam ao primeiro olhar. "Cripple Crow" é Devendra fundando uma comuna para criar a sua versão de "Sgt. Pepper" - a capa é o primeiro indício, o eclectismo, o indício que serve como prova. Arma-se em trovador latino-americano, atira-se a psicadelismos, passa por pop e rock'n'roll e folk (rock) e country (rock). O voo do corvo demora 76 minutos, atravessa 23 canções e transformou Devendra numa estrela improvável.

15. Mike Ladd
Negrophilia
Thisty Ear; distri. Trem Azul

Juntem um rapper letrado e com interesses musicais que vão de Bollywood ao funk e alguns dos mais atentos músicos do free jazz e dêem liberdade ao rapper na fase de pós-produção. Imaginem Sun Ra a tocar para Truman Capote num domingo à tarde de 2017, enquanto mulatas tocam percussão - e Truman Capote descobria que era heterossexual. E tinha medo.

16. Electrelane
Axes Too Pure
distri. Popstock

Ao terceiro disco, as meninas de Brighton, Inglaterra, sintetizam o apelo pop de "The Power Out" com a inclinação neo-kraut de "Rock It To The Moon" e atingem o justo reconhecimento artístico. "Axes" recupera Nico e os Neu! e trá-los para canções movidas a Farfi sa, piano e guitarras indie rock. "Bells" ("fl irt" entre a pop e o krautrock) é uma das canções mais graciosas do ano e "Two for joy" é uma pequena jóia com órgão de feira e coros deliciosos de menina.

17. Black Rebel Motorcycle Club
Howl
Red Ink; dist. Edel

"Whatever happened to my rock'n'roll?" atirou-os para a linha da frente do rock'n'roll do novo milénio: uma descarga sónica que alguém descreveu como "armada de bombardeiros com o cérebro por objectivo". Depois, "Take Them On, On Your Own", demasiado colado ao seu antecessor, sobrevoandonos discreto demais para o seu próprio bem. "Howl", nesta sequência, destaca-se. As guitarras acústicas substituem as eléctricas, a harmónica surge como elemento preponderante e o blues e a folk destacam-se como nunca antes. O negro, esse, é o que já conhecíamos. "Howl" está lado a lado com a estreia como o melhor álbum da banda.

18. Micah P Hinson
And The Gospel Progress
Sketchbook, distri. Sabotage

Uma guitarra, cordas, piano, órgãos, metais. Versos como telegramas cruéis: "And I'm running out of pacience to be fucking with you". Uma narrativa acossada, vingativa e miserabilista em que pouco importa o enredo mas sim o ambiente. Lareiras que no refrão se tornam incêndios. Um Townes van Zandt adolescente, um Mark Eitzel mais terreno. Disco-sangue do ano.

19. Andrew Bird
The Mysterious Production Of Eggs
Fargo; distri. Ananana

Andrew Bird não é nenhum novato, mas nunca o seu trajecto rumo à pop, vindo da música clássica, dera tão suculentos frutos. "The Mysterious Production Of Eggs", quinto álbum a solo do antigo colaborador dos Squirrel Nut Zippers, é um assomo de criatividade. São 14 canções, ora folk, ora pop orquestral, guiadas pelo violino e assobio de Bird. Entre os vários momentos orelhudos do álbum, destacamos o assobio cristalino de "A nervous tic motion of the head to the left".

20. 13&God
13&God
Anticon; distri. Flur

Uma caixa de ritmos pode conviver com um vibrafone enquanto uma guitarra crepita lá atrás. A melodia pode amansar o hip-hop truculento da editora Anticon - de onde vêm os Themselves, metade da banda. O resto vem da Alemanha, dos Notwist. E uma melancolia indie apodera-se da digitália e escreve um disco de canções, melodias recortadas com um estilete fino e subtil. Etério-folk-digital para os nerds de amanhã.




NACIONAL
Escolhas de João Bonifácio, Mário Lopes, Pedro Rios e Vítor Belanciano

1. OLD JERUSALEM
Twice the Humbling Sun

Roubou o nome, Old Jerusalem, a uma canção dos Palace. Dois anos depois da estreia, "Twice the Humbling Sun" é o disco do ano nacional para o Y. Folk que já não é folk. Apenas grandes canções.

2. Sagas
Rostu Limpu
Ed. e distri. Loop Recordings

Quem mais poderia rapar/cantar "Levo nha vida na ponta di knife"? Quem mais misturaria calão inglês, português e crioulo com um balanço afro? Trilhas sonoras que vão do industrial à música de Cabo-Verde, versos inspiradíssimos, uma fl uidez verbal rara, produção cuidada. O hip-hop português raras vezes foi tão bom.

3. Loosers
For-All-The-Round- Suns
Ruby Red, distri. Flur

Esqueçam "Six Songs EP" e os Liars. No primeiro longa-duração dos lisboetas Loosers, o grupo mais visível da pequena cena portuguesa de rock ruidoso e desconstruído liberta-se de dogmas dançáveis e abraçam a celebração comunal. Moram aqui piscadelas de olhos ao Oriente e aos Gang Gang Dance ("Aboriginal urine down the slope of a tight vagina"), canções rock pós-no wave e incursões percussivas que são apenas representação possível das "cerimónias" imprevisíveis que são os concertos do trio.

4. Galandum Galundaina
Modas e anzonas
Ed. e distri. Megamúsica

Há um mundo em "Modas e anzonas". Um mundo antiquíssimo, ao ponto de ser simultaneamente aterrador, dançável e contemporâneo. Gaitas e bombos e chocalhos e cantaras. Fogueiras pela noite dentro. Não é apenas a música de Miranda. Não é apenas de Portugal. É um disco das arábias - e desde os Gaiteiros que o folclore português não raiava o génio assim.

5. The Vicious Five
Up On The Walls
Edi. e distri. Loop Recordings

O EP "The Electric Chants of the Disenchanted" avisou: algo de excitante estava a nascer do coração destes veteranos do hardcore português. Dois anos depois, ultrapassam as expectativas. Nas 11 canções de "Up On The Walls" perpassa um entusiasmo juvenil raro, suportado por rock'n'roll festivo e hardcore angular, com direito a palminhas (haverá coisa mais adolescente?) ou piano ocasionais. O "single" "Bad mirror" serve de manifesto a uma multidão de putos: "We got enough self esteem to have no self esteem/ We're all ugly!".

6. Rocky Marsiano
The Pyramid Sessions
Edi. e distri. Loop Recordings

A geração hip-hop nunca escondeu que a relação com o jazz era profundamente democrática, descomplexada e puramente emocional. D-Mars, croata há muito radicado em Portugal, activista nos Micro, sabe-o e tratou de o provar num álbum que promove uma relação umbilical entre tranquilas batidas hip-hop e diversas cambiantes jazzísticas. Tudo feito a partir da mesa de mistura, optimizando as potencialidades oferecidas pela actividade de estúdio e acreditando sempre na intuição.

7. CAVEIRA
África
Edição de autor

É um espantoso e promissor disco de um trio que impressiona pela maturidade estética já alcançada. Rock livre, aparentemente descoordenado e totalmente improvisado, que se assemelha aos tradicionais clímaxes dos concertos rock - "feedback", caos, suor - ou aos momentos mais psicadélicos dos Blue Cheer ("Vincebus Eruptum" à cabeça) e Hawkwind. "África" é uma luta orgiástica entre uma bateria irrequieta e duas guitarras desconexas a explorar o ruído e múltiplos "riffs" de curta vida.

8. Mariza
Transparente
Ed. e distri. EMI-Music Portugal

Foi o ano em que uma série de fadistas (de Mísia a Cristina Branco) tentaram afi rmar os seus novos trabalhos, com o pressuposto de se afastarem das linhas mais tradicionais do género. Também Mariza optou por uma visão mais universal da canção - "é um disco simplesmente de música", disse - recorrendo aos serviços do brasileiro Jaques Morelenbaum, que acabou por ser importante na concepção sonora, nos arranjos e na direcção de cordas, num álbum atravessado por uma leveza tonificante.

9. Kubik
Metamorphosia
Edi. e distri. Sabotage

Segundo disco do cientista da Guarda. Progressivo electrónico aplicado ao click'n'cut. Há cânticos de monges, guitarras a bradar, a herança da música de animação, sequências de vinhetas surrealistas. E é do melhor cinema que pode ouvir.

10. Preto
Quietude
Meifumado, distri. Sabotage

Quatro anos depois do projecto Precyz, João Roquette (Preto) reincidiu a solo num registo sóbrio, salpicado por motivos, quase imperceptíveis a ouvidos menos avisados, resgatados do jazz, funk, electrónicas ou hip-hop. Em redor, silêncio e uma dimensão poética que parece nascer dos preguiçosos movimentos rítmicos. Depois da Zany Dislexic Band, Pplectro e Kalaf + Type, a confi rmação de um projecto editorial de características independentes - a Meifumado.

1 comentário:

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